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PALAVRAS COM CUIDADO

Aqui vamos falar de saúde mas também vamos partilhar histórias de coragem, experiências de superação, muitas dicas de bem-estar. Vamos trocar por miúdos terminologias médicas e descomplicar temas, vamos abordar a vida que acontece e lembrar vidas que aconteceram. Aqui as palavras são escritas com o cuidado que merece.

Quando nos falta a saúde

Ainda era cedo, pensava Joaquim, para pensar em partir. Tinha a sua reforma toda planeada. Metade do ano seria passado em Portugal, terra que o viu nascer e crescer mas à qual não voltou para viver nos últimos quarenta e cinco anos, e o Brasil, terra pela qual se apaixonou e onde desencantou um pedacinho de paraíso na terra e para onde fugia sempre que podia. Estava tudo bem encaminhado para que os dias de jubilado fossem épicos. Finalmente teria tempo para estar com as filhas e netos que pouco viu crescer. Seria perfeito…só que não foi.

Uma tosse que teimava em não o largar ao longo dos últimos meses de trabalho levou a que nos primeiros dias da sua tão esperada aposentação fosse visitar um médico, coisa que detestava e que fazia o menos possível. Preferia assobiar para o lado e fazer de conta que não se passava nada. Mas lá foi, não muito convencido, seria medo provavelmente. O diagnóstico caiu como uma pedra, esmagando todos os seus sonhos para os próximos anos. Cancro do pulmão, dos maus, metastizado no cérebro, com um prognóstico de seis meses a um ano de vida.

(Sobre)viveu mais três anos mas deixou para trás o que havia idealizado, sem saúde não seria possível. O homem alto e elegante deu lugar a um velhinho, curvado pela dor e pela desilusão. Tristeza era o que se lia nos seus olhos, uma tão grande e profunda tristeza, uma vida adiada para ser aproveitada mais tarde, mas mais tarde não chegou.

Houve medo na sua voz, quando pedia que lhe cuidassem das filhas quando ele partisse, houve medo quando soube que não havia mais nada a fazer para além de esperar. E esperámos, todos, tentando devolver aos dias a cor que já não tinham, levando as crianças para brincarem no chão ao pé do avô, para que tudo parecesse normal. Mas não era, é tudo menos normal vermos a pessoa que nos deu vida a definhar. Os dias que ainda não eram todos muito maus, começaram a escassear, houve tempo para um almoço de despedida com as filhas, e depois foi tudo muito rápido.

Chegou o fim, foi-se a dor, foi se o olhar de desilusão, ficou a saudade.

Com o Joaquim aprendi que não podemos deixar de viver hoje, para viver amanhã. Hoje é a única certeza que temos, é hoje que podemos agir, ontem já foi não o podemos mudar e amanhã, quem sabe se ainda aqui estaremos.

Obrigada Pai.
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O(A) meu(minha) filho(a) é autista… e agora?
Há liberdade sem controlo ou vice-versa?

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